17.6.19

Um pobre velho homem

       Olhando para essas árvores, lembro da idade que eu podia sair pelo mundo sem estar acompanhado, agora, limito meus passos a terrenos planos, a caminhos curtos, a destinos certos. Já não tenho mais forças, arrependo-me profundamente por não ter aproveitado enquanto forças não me eram o problema, mas usava como desculpa não ter tempo.
       Não posso reclamar dessa solidão que, hoje, me atinge, pois sei que estou apenas colhendo o que eu plantei. Eu devia ter sido presente na vida de meus filhos, devia ter amado mais minha mulher, no tempo que a tinha em meus braços. Droga de ambição humana, agora só me resta aquilo que tanto lutei, nos anos sadios de minha vida, dinheiro. O que fazer com ele, se ele não é capaz de trazer quem eu quero de volta da morte? Muito menos é capaz de comprar o afeto de meus filhos?
        Sempre que chega o dia da visita aqui no asilo, eu entristeço, pois sei, que, diferente dos outros, ninguém virá me ver. Deve ser essa a sensação que meus filhos sentiam quando me ausentava de suas apresentações ou reuniões da escola por conta de obrigações do trabalho, as quais eu considerava como coisas mais  importantes da minha vida.
         Minha mente tenta criar lembranças que nunca fui capaz de realizá-las, como ensinar meus filhos a andar de bicicleta ou tomar sorvete na praça com minhas filhas.
         Olho para cada pessoa que aqui comigo está, e sei que, quando eles morrerem, inúmeras serão as pessoas sofrendo pela falta que ainda hão de fazer em suas vidas.
     Acredito, que o máximo que acontecerá quando o meu coração parar, será a enfermeira, que de mim cuida, ligar,  e aos meus filhos noticiar. Talvez ela demonstre um pouco de compaixão, use um eufemismo, pensando que eles sentirão alguma dor, e diga que eu vou para um local melhor. Sei que eles não irão se importar, não me restam dúvidas que eles estão certos, eu fui um péssimo pai, se é que eu posso me qualificar como tal. Como dizem, pai é quem cuida, e eu nunca fui capaz de ser presente em suas vidas, nunca perguntei como foi o dia deles, muito menos me importei se estavam bem na escola.
       Talvez alguém mande uma coroa de flores para o meu velório ornamentar, mas que velório, se ninguém aparecerá?
         Sempre acreditei que ter dinheiro seria suficiente, proporcionar uma estabilidade financeira à minha família bastaria para suprir minha ausência, mas minha ignorância foi tão grande, que posso ter ganhando dinheiro, mas perdi o que, realmente, era importante. Deixei de viver momentos inesquecíveis com minha família, por causa da droga da minha ganância.
                                           Façanha, Baby  (Um pobre velho homem)
   

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